A nossa memória está no outro

Reencontrei ontem uma amiga que não via, nem mantinha contato, há 11 anos, desde que ela foi embora de P. Velho para o RJ. Ela é daquelas pessoas que eu , costumo dizer, gosto “de graça”. Isto significa que todos os seus pecados são por mim perdoados, inclusive o da ranzinza, que a fez sair daqui com a fama de “complicada” , mas na verdade era só reflexo da insatisfação por morar aqui. Foi efusiva ao rever e abraçar os antigos colegas de trabalho. Na maioria das vezes pedindo para que eles não dissessem o nome , para que ela fizesse o esforço de lembrar-se por si mesma. Quando a memória não funcionava, ela recorria ao crachá. Conversamos longamente, relembrando coisas da nossa época de “pioneiras de Rondônia dos anos 90”, e de vez em quando eu lembrava de algum episódio. São delas algumas frases ditas nos ano 90, que repito, quando quero fazer piada: “Porto Velho até que é bonitinha, as calçadas todas gramadas. Verdade que a grama está sempre alta “ ( ironizando o capinzal que toma conta das ruas;) “Isso aqui pra mineiro é rio!!!” (entusiasmada quando foi tomar banho num igarapé no Tênis Clube ) Contou-me que chorou emocionada quando o avião apontou sobre a cidade. A mesma cidade que ela, pra fazer piada, dizia que bateria o pó da sandália, à la Carlota Joaquina, no dia em que fosse embora. Relembrei também de uma festa de aniversário em que ela suspirou em voz alta por um presente: um telefone celular, tecnologia até então só existente no Japão e EUA e caríssima. Ela se surpreendia: - eu disse isso? Nossa isso não estava na minha memória! Claro a nossa memória está no outro. Eu sempre penso nisso quando lembro de um episódio recontado recentemente por uma amiga minha da época de faculdade nos anos 80. Mas essa é outra memória, digo é outra história , conto na próxima vez.
Escrito por Vania Beatriz às 15h16
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