Edícula Habitável


Sexta-feira, quase treze.

 

 

Sai do trabalho e fui assistir à palestra com o jornalista Caco Barcelos, era uma atividade extra classe da faculdade. O evento começaria as 20hs. Quando cheguei , ainda não havia começado, mas o estacionamento interno já estava lotado. Eu teria que deixar o carro estacionado na rua.  Fiquei apreensiva porque o notebook e a  filmadora que uso no trabalho estavam na mala do meu carro. (Final de projeto, eu precisaria trabalhar no final de semana).

Resolvi vir em casa deixar minhas pastas e os equipamentos, e voltei bem a tempo de ver abertura do evento, que começou com mais de uma hora de atraso.

 

Caco Barcelos, veio a convite do Jornal Diário da Amazônia, que comemora 20 anos de criação neste dia 13.  Vejam que ironia, ele falou sobre violência: que o brasileiro é muito violento, que é o que mais mata por motivo fútil; que pesquisas mostram que ricos e pobres são a favor da tortura policial a bandidos.

 

Todos os números de mortes vinham na minha mente, minutos mais tarde, quando, deitada no chão do quarto, ao lado de minha filha e de meu marido, com uma arma apontada para nossas cabeças, rezava para que não entrássemos para a estatística de Caco Barcelos.


Eu estava meio inquieta, apesar do local estar cheio de colegas da Fac., sentei sozinha. Quando a palestra acabou e Caco já só respondia às perguntas, resolvi vir embora. Eram 10:47.  No caminho vinha pensando no ouvido na palestra, no pedido de ajuda financeira de minha empregada para fazer uma cirurgia, e conclui que eu doaria os R$500 pedido (as vezes a gente leva um prejuízo besta  e gasta mais que isso, pensei).

 

Na esquina soturna de casa, como de hábito, olhei  para um lado e para o outro antes de abrir o portão eletrônico. Tive uma sensação estranha, parecida com aquela que “me avisou” minutos antes, que  uma caixa d’água cairia justamente no lugar onde eu estava, e sai a tempo de escapar da morte.

 

Quando abri o o portão vi os malandros surgirem. Sempre pensei que numa situação dessa eu tornaria a fechar o portão e ia embora com o carro, mas, já não dava pra eu recuar, só torci que o portão fechasse completamente antes que eles pudessem entrar, mas entraram!

 

Eram três, todos armados de revólveres 38.  Dei  um grito e meti a mão na buzina para chamar a atenção do marido e da filha que estavam dentro de casa. Mas não adiantou de nada, enquanto um me obrigava a deixar o carro e mostrar quem estaria nos quartos térreos, os outros dois já estavam lá em cima. Quando subi com o outro, encontrei Bia e Airton (todo ensangüentado da coronhada que levara) deitados no chão, onde também fui obrigada a deitar.


Seguiu-se 30 infindáveis minutos de tortura física e psicológica ( O que vc.  me diz dessa Caco Barcelos? Já experimentou? ). Pediam dinheiro, jóias e armas e ameaçavam nos matar se  não disséssemos onde estavam. Em tensa negociação, onde A . apanhou mais um pouco, porque disse que o vizinho era policial;  e o pior momento para mim, ver minha filha ser puxada pelos cabelos, numa tentativa de fazê-la de escudo.

Ao mesmo tempo em que íamos dando pistas de tudo  o que tínhamos, dinheiro só mesmo o que estavam nas bolsas, jóias quase nenhuma , entreguei a aliança e eles acharam no guarda-roupa uma gargantilha  e um anel quebrado, eram  essas todas as minhas jóias.

 

Comecei a orar , clamar por Jesus  Misericórdia  em voz alta, em nenhum momento eles mandaram eu me calar. Os minutos passando e meu receio era que o filho chegasse. Então eu rezava baixinho: "Jesus Misericórdia age, leva esses homens embora sem que nenhum tiro seja dado e antes que meu filho chegue".

 
Tenho certeza que foram as orações que surtiram efeito, pois eles pararam de agir com violência, até deram água para o A. quando este disse que estava passando mal. Nos amarram, mãos e pés, trancaram a porta do quarto e foram embora levando o meu carro.  Quando nos libertamos, ligamos para a policia e para  uns amigos: o namorado da Bia e a mãe chegaram em casa  primeiro que a polícia. Depois de registrada a ocorrência, levou Airton  para o hospital suturar a  brecha aberta na cabeça.

 

O prejuízo maior é o emocional. Depois são as minhas  informações de trabalho  que estavam nas pastas e nos equipamentos. Os bens materiais, espero recuperar uma parte com o seguro . Enfim coisas que se ainda fizer sentido em nossas vidas , trataremos de com trabalho recuperá-las, o que fica, é a gratidão a Deus, por  termos nossas vidas preservadas. Isso é o que importa.

 

Em tempo o carro já foi localizado.



Escrito por Vania Beatriz às 21h32
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